Intrusos?


Foto: ABCD/Divulgação

Que tal você tentar imaginar como seria uma partida de futebol sem a presença da imprensa?

Com as devidas vênias aos demais veículos, vamos imaginar como seria uma partida de futebol sem a presença do rádio no estádio. Agora que você já fez esse exercício, que tal responder para você mesmo a conclusão dessa reflexão?

Certamente você deve estar pensando a mesma coisa que eu: não teria a menor graça.

As relações entre imprensa esportiva e futebol são antigas e inseparáveis. Uma coisa depende da outra. Uma coisa completa a outra. Mas, novamente, volto a dar ênfase ao veículo rádio que desde sempre foi o maior parceiro de mídia que o futebol já teve.

Talvez, nos tempos atuais, essa parceria não seja a mesma em termos financeiros. Evidentemente que a TV rende muito mais dividendos aos clubes. Todavia, o rádio se sobressai em outros quesitos que jamais poderão ser desconsiderados.

O rádio possui papel fundamental na propagação, divulgação e informação do futebol, um dos únicos produtos a serem divulgados de forma gratuita por esse veículo de comunicação. O futebol possui o privilégio de ser divulgado sem nenhum custo, visto que também pode ser considerado um produto, um evento. As resenhas esportivas nas rádios ocorrem diariamente, com repórteres que cobrem o dia a dia dos clubes e deixam o torcedor ouvinte de futebol informado sobre o que ocorre e divulga a marca dos clubes. Qual outro veículo faz isso com a mesma capacidade de alcance?

Aqui no Distrito Federal, que tem um futebol que inexiste para a grande mídia nacional, pouco se valoriza o rádio esportivo. Aliás, a sensação que se tem por aqui é que nós cronistas somos uma espécie de inimigos dos clubes e da federação. Sim. É assim que somos vistos e recebidos por alguns dirigentes. Apesar de fazermos não apenas a divulgação, mas, também, a promoção gratuita do principal produto dos dirigentes, ainda somos pouco valorizados e raramente respeitados por muitos cartolas locais.

O desprestígio de alguns dirigentes com a imprensa é tão grande que muitas vezes precisamos ficar mendigando condições básicas de estrutura para desenvolver o nosso trabalho, do qual o maior beneficiado é o próprio clube/dirigente. Mais que mendigar estrutura de trabalho, quase sempre vamos aos estádios pagando despesas do nosso próprio bolso para fazer um trabalho de graça, onde nem sempre somos bem-vindos.

Aqui vai uma verdade: a imprensa esportiva brasiliense não é reconhecida por grande parcela dos dirigentes locais e da federação como parte importante do nosso futebol. Pode até parecer que sim na teoria, mas não é na prática. A verdade é que muitos deles nos veem como intrusos.

É importante ressaltar que essa realidade impera há alguns anos. Essa relação até já foi melhor. Curiosamente, foi melhor exatamente nos melhores momentos do nosso futebol. Época em que houve registros de mais de uma dezena de emissoras de rádio em um mesmo estádio transmitindo a mesma partida. Época em que os cronistas eram recebidos como grandes parceiros dos clubes. Sim. Porque foi sempre assim que nos posicionamos. Uma imprensa esportiva parceira do futebol. Mas, infelizmente, a realidade mudou de uns tempos para cá.

Apenas para trazer um exemplo concreto, nesta segunda-feira (4/9), durante o arbitral do Candangão 2018, tive uma grande certeza do desprestígio dos nossos dirigentes para com a imprensa (com exceção da Rede Globo que paga uma miséria para impedir que os demais veículos façam uma cobertura de verdade).

Em nenhum momento o arbitral (dirigentes) fez menção honrosa ao trabalho da crônica esportiva. Aliás, se existisse qualquer consideração, a federação teria convidado a categoria para ir ao arbitral. Há 42 anos, a Associação Brasiliense de Cronistas Desportivos é uma das maiores parceiras da federação de futebol. Aí eu pergunto: durante o arbitral, a federação se lembrou de que a ABCD existe?

Não teria sido uma atitude diplomática da federação se ela tivesse enviado um ofício convidado a ABCD para se fazer presente como ouvinte? Afinal, a ABCD ajuda a federação na parte organizacional do campeonato. Nada disso aconteceu. A falta de consideração é gritante. Essa é a grande verdade.

Talvez seja essa falta de consideração uma das principais razões que resultaram no quase fim do rádio esportivo nos estádios do DF. Não há como se motivar num ambiente onde o sacrifício pela sobrevivência é abundante, e ainda assim não somos merecedores sequer do reconhecimento justo daqueles que mais saboreiam o sabor de nossas lutas.

Apesar dessa realidade dolorida, seguiremos o trabalho apoiando e divulgando o nosso futebol. Continuaremos fazendo o nosso trabalho, ainda que a importância dele permaneça invisível aos olhos de grande parte dos nossos dirigentes. Se não temos o apoio que gostaríamos e merecemos dos dirigentes, o mesmo não se pode dizer dos torcedores que nos honram com grande audiência. Eles, sim, são e sempre serão a razão maior do nosso incansável trabalho.

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