Sem transferência de responsabilidade

Outro dia, enquanto tomava café em uma padaria localizada na Asa Norte, uma pessoa que me reconheceu disse-me que para o futebol de Brasília melhorar, a imprensa precisa deixar de enfatizar as coisas ruins que acontecem por aqui e elogiar os pontos positivos. No entendimento do dito cujo, se forem abordados apenas os pontos positivos que envolvem os clubes e a Federação, o futebol local seria melhor e mais investidores seriam atraídos por meio dessa sugerida “mídia positiva”. Eu respondi ao interlocutor que não é papel da imprensa elogiar ou criticar. A imprensa deve atuar de acordo com os fatos. Elogio ou crítica é consequência natural das coisas.

O ponto de vista da referida pessoa até faria sentido, desde que pensássemos o futebol daqui com a cabeça dentro de uma caixa de fósforos. Não é necessariamente camuflando os problemas ou exaltando apenas as qualidades que vamos fazer o nosso futebol evoluir. Não adianta tentar convencer um cliente a comprar uma laranja, dizendo que ela é doce, se a gente tem plena consciência de que ela é tão azeda quanto um limão. O cliente pode até comprar, seduzido pelo poder de persuasão do vendedor, mas ele vai comprar só uma vez, não vai gostar e ainda vai dizer para outras pessoas que sua laranja não é boa.

O que o futebol do DF carece é de bons projetos. Há anos que a maioria dos nossos dirigentes tratam os clubes como propriedade deles. Há anos que muitos botam os clubes no campeonato sem saber em que local o time vai treinar. Sem saber de onde vão tirar recursos para pagar a primeira folha salarial. Não fazem planejamento. Há anos que muitos dos nossos cartolas se preocupam mais em ver a desgraça do rival que o crescimento do seu próprio clube. Há anos que os interesses do futebol daqui são tratados com a prioridade invertida. Aqui, o individual vem antes do coletivo. O futebol do DF precisa ser visto como uma causa que precisa ser abraçada como um todo. Nenhum time será tão forte se todos os adversários forem fracos.

É de boa gestão que o futebol precisa. Isso tem que começar pelos dirigentes, clubes e chegar à Federação. Nossos dirigentes precisam entender que o fracasso do nosso futebol muito se deve a eles próprios. E a solução também pode e deve começar por eles. Logo, eles precisam querer mudar. Precisam profissionalizar a gestão dos clubes se profissionalizarem também.

Apenas para citar como exemplo: em 2014, a Chevrolet fez uma oferta de doação de 4 carros para serem sorteados ao longo do campeonato. A ideia era atrair torcedores aos estádios. Sabem o que fizeram os dirigentes sentados à mesa de reuniões da Federação? Cresceram o olho e cada um queria um carro para si (a maioria dos dirigentes se manifestou nesse sentido). Eles não queriam a promoção do campeonato. Eles queriam o carro para eles. Ou seja, pouco se importaram com o interesse coletivo. Com a promoção do evento. No fim das contas, não houve carro algum (a Chevrolet não é trouxa). Isso para citar apenas um exemplo de como o nosso futebol é pensado de forma tão pequena.

Ainda vamos precisar de um tempo para melhorar a imagem e a credibilidade do campeonato. Não adianta continuar a expor sapato bonito em vitrine suja. Poucos vão se aproximar dela. Além de tudo que foi dito (não sou dono da razão), é necessário fazer uma grande limpeza na vitrine do futebol de Brasília. Os entendidos entenderão.

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